sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Pelas garotas de Kavumu

Por Lauren Wolfe

Mãe e garota de Kavumu / Lauren Wolfe



Uma lua quase cheia ilumina o vilarejo de Kavumu, na região leste do Congo, na noite de 26 de dezembro de 2015. Pouco antes da meia-noite uma figura passa furtivamente pelas sombras sobre a areia vermelha se esgueirando pelas tendas e entra numa cabana de madeira. O invasor agarra uma menina de três anos chamada Denise e a tira da cama que dormia com a mãe. Na mesma noite ainda estavam no cômodo outras duas mulheres e mais três crianças. Ninguém ouviu nada.

A mãe de Denise acordou após a meia-noite, seus braços buscaram pela criança na cama, porém apenas encontraram o vazio. Uma barra de ferro usada para trancar a porta estava no chão e uma machete fincada no solo do lado de fora da entrada. A mulher reconheceu os sinais: esta situação vem se repetindo muito em Kavumu nos últimos dois anos e seis meses.

A família acordou os vizinhos, as pessoas dividiram em grupos de busca. Em um campo com plantações de sorgo, milho e mandioca rapidamente encontram Denise deitada sobre a terra úmida, vestindo apenas seu casaco fúcsia com capuz. Foi estuprada e estava muito ferida, sangue saindo entre suas pernas. A levaram diretamente para o hospital mais próximo e uma das equipes de busca foi enviada para informar o chefe do vilarejo e os policiais do crime ocorrido. Denise passou a noite hospitalizada e na manhã seguinte foi conduzida para o hospital Panzi, um complexo com mais recursos na capital Bukavu. No início dos ataques a equipe médica local ainda sem preparo estava limpando os indícios de estupros das garotas, mas os médicos do Panzi os ensinaram como trata-las de uma maneira que mantivesse as provas para os peritos forenses.

Conforme alguns vizinhos Denise foi a 39º criança estuprada no vilarejo de Kavumu. O primeiro caso denunciado se deu em 3 de junho de 2013. Em cada uma das vezes homens em grupo sequestraram de suas camas uma garota entre 18 meses a 11 anos, a estupraram e ou a devolviam para sua casa ou a deixavam num campo próximo no qual trabalham soldados dispensados. Ao menos duas meninas morreram em decorrência dos ferimentos.

Apesar de estupro ter sido usado como arma de guerra nesta parte da República Democrática do Congo (RDC) nos últimos 20 anos, estes ataques contra crianças são um novo fenômeno – em termos de padrões repetidos, o simbolismo dos ataques e a idade das vítimas. De início, os casos não pareciam relacionados. Mas com o tempo, a cada abdução as similaridades nos detalhes eram notáveis – a maneira dos homens entrarem nas casas, o modo como as garotas eram levadas, violadas e retornadas ou abandonadas no mesmo campo e o fato de que nenhuma das famílias despertava enquanto as crianças eram levadas. Investigadores começaram a desconfiar na existência de uma ação organizada de quadrilha por trás dos ataques.

No dia 20 de junho de 2016, o suspeito de ser o líder desta quadrilha de estupradores, e membro do parlamento congolês, foi preso junto de 67 de seus comandados.

Desde então não houve estupros em Kavumu.

Por outro lado, as garotas e suas famílias necessitam de sua ajuda. Necessitam de terapia e ajuda para pagar suas contas médicas. Necessitam saber que as pessoas pelo mundo afora podem vê-las e as querem seguras. Necessitam de simples fechaduras em suas portas e sua doação pode fazer isto.

Estou trabalhando com uma organização espanhola chamada Coopera, a qual tem doado muito para ajudar estas famílias como acompanhamento terapêutico e pagamento para despesas médicas. Seu dinheiro irá para elas e também para Médicos de Direitos Humanos que têm batalhado nos últimos anos por justiça para estes crimes, e também para Maman Shujaa, uma organização de direitos da mulher localizada em Bukavu que se ofereceu para providenciar absorventes para as meninas e mães se conseguirem os recursos (isto manterá as garotas na escola e permitirá que as mães trabalhem).

Para acessar o link original da campanha e fazer sua doação:

Leia o artigo de Lauren Wolfe no The Guardian sobre esta história (em inglês):

Tradução: Gabriel Leão

Nenhum comentário:

Postar um comentário